Terça-feira, 9 de Abril de 2013

Um jogo perigoso

 Portugal esteve nos últimos três dias a jogar um jogo perigoso e irresponsável sobre a possibilidade de um segundo resgate nas próximas semanas, por responsabilidade directa do Governo e da Oposição. Tão pernicioso e perverso como a decisão do Tribunal Constitucional (TC) para a normalização do financiamento do Estado e da economia e para nos livrarmos da 'troika'.

Em pouco mais de 72 horas, depois da decisão dos 13 juízes que chumbaram quatro artigos do Orçamento do Estado para este ano avaliados em 1.320 milhões de euros, Portugal passou de bom aluno que estava alinhado com a Irlanda, e que até já tinha dado o primeiro passo de regresso aos mercados, para uma situação próxima da grega, sem dinheiro para pagar os subsídios de férias de funcionários públicos e pensionistas que têm de ser repostos.

É difícil perceber porque é que o Governo não pôs cobro a esta discussão, nestes termos, e porque é que a Oposição, e o PS em particular, não exigiu explicações detalhadas sobre este risco, preferindo jogadas tácticas. A não ser por razões puramente partidárias, de dramatização ao limite da vida política ou, em alternativa, porque as contas públicas e as necessidades de financiamento da República estão numa situação calamitosa, muito pior do que nos andam a vender, desde logo Vítor Gaspar, que já disse publicamente que não temos necessidades acrescidas de financiamento em 2013 e que o regresso aos mercados tinha outros objectivos. Desde logo de credibilidade externa.

Ora, é precisamente esta credibilidade externa que fica em causa, que fica ameaçada pela discussão sobre a iminência de um segundo resgate. Nas contas do Orçamento para este ano, o Governo tem a autorização para um endividamento líquido na ordem dos 12 mil milhões de euros, claramente acima dos 8,4 mil milhões previstos para o défice. É uma almofada de financiamento suficientemente confortável para pagar o chumbo do TC, o que não torna menos difícil, claro, a redução do défice em 2013 e 2014. Uma coisa são os objectivos de défice, outra o seu financiamento.

Este psicodrama fragiliza a posição de Portugal nos mercados externos e junto dos credores e da própria 'troika' e, tão grave como isso, assusta os portugueses, as famílias e as empresas, que não esquecerão tão cedo a solução cipriota. É pró-cíclica em relação a uma situação que já é difícil. Ainda mais num momento em que Portugal está, literalmente, em 'stand-by', à espera da reunião dos ministros das Finanças do euro e de uma decisão sobre o alongamento das maturidades do reembolso dos empréstimos da 'troika'.

Às vezes, apenas é preciso bom-senso.

 

PS: No dia seguinte ao desaparecimento de Margaret Thatcher, fica a capacidade de fazer escolhas, que rareia. E uma frase que deveria ser lida com atenção, uma verdade sem dúbias narrativas: "there is no such thing as public money, there is only taxpayers money". O dinheiro que o Estado gasta, o dinheiro que agora está no centro da discussão política por causa da reforma do Estado não é dinheiro público, é dinheiro dos contribuintes.

publicado por concorrenciaperfeita às 07:00
link do post | favorito
Comentar:
De
  (moderado)
Nome

Url

Email

Guardar Dados?

Este Blog tem comentários moderados

(moderado)
Ainda não tem um Blog no SAPO? Crie já um. É grátis.

Comentário

Máximo de 4300 caracteres



Copiar caracteres

 



O dono deste Blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

mais sobre mim

pesquisar

 

Março 2014

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
15

16

24
25
27
28
29

30
31


posts recentes

Salgado recupera a espera...

A política destrói valor

Porque é que Cravinho ass...

Em inglês não soa melhor

A palavra de Cavaco

Uma mão cheia de nada

Acordo para uma saída cre...

Carta aberta ao 71º subsc...

O plano P, de Parlamento

Um acto falhado

arquivos

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

blogs SAPO

subscrever feeds